Comunicação | V Congresso Internacional de Pedagogia - “Educação e Cultura de Paz: Memória, Verdade e Perdão”: 18, 19 e 20 de Janeiro de 2024 - Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) da Universidade Católica Portuguesa (UCP) – Centro Regional de Braga.
Uma onda crescente de ignorância e violência assombra-nos o presente. O eclipse da verdade no espaço público revela, ao longe, na linha do horizonte, a caravana sem fim da enorme dor humana, da insigne dor humana (Pessanha, 1995, p. 134). Que pode uma cultura escolar da verdade contra os ciclos do desejo mimético e da rivalidade mimética que geram tanta violência recíproca (Girard, 2023)? Pode uma educação para a racionalidade sustentar o entendimento e a boa relação entre pessoas e povos? Pode a violência ser reduzida e controlada pela racionalidade?
Argumentarei que o paradigma de racionalidade imanente aos atuais normativos curriculares é inadequado ao papel da escola como força motriz para um melhor entendimento e boa relação entre pessoas e povos.
Primeiro, recordam-se alguns fatores de contexto que condicionam a escola: relativismo, indiferença perante os factos ou verdade, fadiga da informação, meritocracia, inteligência artificial, multiculturalismo, populismo. Ao mesmo tempo, apresentam-se algumas evidências da contaminação da escola e dos seus agentes por esse espírito do tempo presente.
Num segundo momento, caracteriza-se o paradigma de racionalidade imanente às Aprendizagens Essenciais (Direção Geral da Educação, 2018; Martins et al., 2017), recordando os seus principais vetores geradores: Princípios, Visão, Valores e Áreas de Competências.
Discute-se, então, a relevância deste paradigma pedagógico para compreender e reagir à violência que nos assombra o presente e tolda o futuro. Esta análise adota duas óticas complementares, epistemológica (K. Popper, 2002a, 2002b) e ético-antropológica (Bonhoeffer, 2007; Buber, 2014; Cortina, 2021; Girard, 2023).
O primeiro ponto de vista estabelece alguns princípios importantes para um paradigma adequado de racionalidade: não há fontes últimas do conhecimento; é possível operar com a ideia de verdade objetiva; o avanço do conhecimento consiste na modificação de um conhecimento anterior; há critérios para reconhecer o erro e a falsidade; há dois tipos de racionalismo: um racionalismo utopista, que conduz à violência, e um racionalismo crítico, baseado na razoabilidade, uma atitude que pressupõe uma boa dose de humildade intelectual e uma predisposição para dar e receber.
Do segundo ponto de vista recolhem-se alguns critérios para se aferir a relevância do ideal de racionalidade para o Bem pessoal e comunitário: reconhecimento cordial e compassivo da condição de vulnerabilidade que constitui o ser humano; independência da ficção de que o sujeito do conhecimento e da ação ética é o sujeito isolado; sentido de responsabilidade como substituição vicária; não produzir rivalidade mimética.
Tais princípios e critérios permitirão mostrar que ao atual paradigma educacional subjaz um racionalismo utópico e incapaz de renovar a democracia e contribuir para uma cultura de paz na medida em que: i) ignora a verdade ao mesmo tempo que dá primazia quase exclusiva ao conhecimento proposicional; ii) está cativo de um interesse instrumental, o “pseudo-problema técnico de produzir pessoas”(Nemésio, 1976); iii) alimenta-se da rivalidade mimética; iv) despreza o genuíno debate crítico de ideias e argumentos.
Conclui-se mostrando a relevância para o atual contexto pedagógico de uma prática tradicionais da pedagogia inaciana, nomeadamente das discussões regulares e públicas (Companhia de Jesus, 1986; Miranda, 2018).
Referências
Bonhoeffer, D. (2007). Ética. Assírio & Alvim.
Buber, M. (2014). Eu e Tu. Paulinas.
Companhia de Jesus. (1986). Características da Educação da Companhia de Jesus. https://redejesuitadeeducacao.com.br/wp-content/uploads/2019/05/CaractEducacaoSJ.pdf
Cortina, A. (2021). Ética cosmopolita. Una apuesta por la cordura en tiempos de pandemia. Paidós.
Direção Geral da Educação. (2018). Aprendizagens Essenciais. https://www.dge.mec.pt/aprendizagens-essenciais-0
Esquirol, J. M. (2022). Humano Mais Humano: Uma antropologia da ferida infinita. Paulinas Editora.
Estevão, C. V. (2004). Educação, Justiça e Democracia: um estudo sobre as geografias da justiça em educação. Cortez Editora.
Girard, R. (2023). Aquele por quem o escândalo chega. Guerra & Paz.
Martins, G. d’Oliveira, Gomes, C. A. S., Brocardo, J. M. L., Pedroso, J. V., Acosta Carrillo, J. L., Silva, L. M. U., Encarnação, M. M. G. A. da, Costa, M. J. do V., Calçada, M. T. C., Nery, R. F. V., & Rodrigues, S. M. C. V. (2017). Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (G. d’Oliveira Martins, Ed.). Ministério da Educação / Direção-Geral da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf
Miranda, M. M. L. de. (2018). Ratio studiorum da Companhia de Jesus (1599) : regime escolar e plano de estudos. Axioma – Publicações da Faculdade de Filosofia.
Nemésio, V. (1976). Era do átomo, crise do homem. Livraria Bertrand.
Pessanha, C. (1995). Clepsydra (P. Franchetti, Ed.). Relógio D’Água Editores.
Plato. (1997). Philebus. In J. M. Cooper & D. S. Hutchinson (Eds.), Complete Works (pp. 398–456). Hackett Publishing Company. https://cful.letras.ulisboa.pt/wp-content/uploads/2022/03/Plato-Complete-Works-by-Plato-John-M.-Cooper-D.-S.-Hutchinson-z-lib.org_.pdf
Popper, K. (2002a). On the Sources of Knowledge and Ignorance. In Conjectures and Refutations: The Growth of Knowledge (pp. 3–39). Routledge.
Popper, K. (2002b). Utopia and Violence. In Conjectures and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge (pp. 477–488). Routledge.
Popper, K. (2003). Utopia e Violência. In Conjecturas e Refutações (p. 473484). Almedina.
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Zilhão, A. (2010). Animal racional ou bípede implume? Um ensaio sobre acção, explicação e racionalidade. Guerra e Paz.