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António Mendes
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Filosofia. Linguagem. Cognição.

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António Mendes

Filosofia. Linguagem. Cognição.

Racionalidade e violência: pode uma cultura da verdade sustentar a paz?

admin, 19/01/202401/04/2024
Comunicação | V Congresso Internacional de Pedagogia - “Educação e Cultura de Paz: Memória, Verdade e Perdão”: 18, 19 e 20 de Janeiro de 2024 - Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) da Universidade Católica Portuguesa (UCP) – Centro Regional de Braga.

Uma onda crescente de ignorância e violência assombra-nos o presente. O eclipse da verdade no espaço público revela, ao longe, na linha do horizonte, a caravana sem fim da enorme dor humana, da insigne dor humana (Pessanha, 1995, p. 134). Que pode uma cultura escolar da verdade contra os ciclos do desejo mimético e da rivalidade mimética que geram tanta violência recíproca (Girard, 2023)? Pode uma educação para a racionalidade sustentar o entendimento e a boa relação entre pessoas e povos? Pode a violência ser reduzida e controlada pela racionalidade?

Argumentarei que o paradigma de racionalidade imanente aos atuais normativos curriculares é inadequado ao papel da escola como força motriz para um melhor entendimento e boa relação entre pessoas e povos.

Primeiro, recordam-se alguns fatores de contexto que condicionam a escola: relativismo, indiferença perante os factos ou verdade, fadiga da informação, meritocracia, inteligência artificial, multiculturalismo, populismo. Ao mesmo tempo, apresentam-se algumas evidências da contaminação da escola e dos seus agentes por esse espírito do tempo presente.

 Num segundo momento, caracteriza-se o paradigma de racionalidade imanente às Aprendizagens Essenciais (Direção Geral da Educação, 2018; Martins et al., 2017), recordando os seus principais vetores geradores: Princípios, Visão, Valores e Áreas de Competências.

Discute-se, então, a relevância deste paradigma pedagógico para compreender e reagir à violência que nos assombra o presente e tolda o futuro. Esta análise adota duas óticas complementares, epistemológica (K. Popper, 2002a, 2002b) e ético-antropológica (Bonhoeffer, 2007; Buber, 2014; Cortina, 2021; Girard, 2023).

O primeiro ponto de vista estabelece alguns princípios importantes para um paradigma adequado de racionalidade: não há fontes últimas do conhecimento; é possível operar com a ideia de verdade objetiva; o avanço do conhecimento consiste na modificação de um conhecimento anterior; há critérios para reconhecer o erro e a falsidade; há dois tipos de racionalismo: um racionalismo utopista, que conduz à violência, e um racionalismo crítico, baseado na razoabilidade, uma atitude que pressupõe uma boa dose de humildade intelectual e uma predisposição para dar e receber.

Do segundo ponto de vista recolhem-se alguns critérios para se aferir a relevância do ideal de racionalidade para o Bem pessoal e comunitário: reconhecimento cordial e compassivo da condição de vulnerabilidade que constitui o ser humano; independência da ficção de que o sujeito do conhecimento e da ação ética é o sujeito isolado; sentido de responsabilidade como substituição vicária; não produzir rivalidade mimética.

Tais princípios e critérios permitirão mostrar que ao atual paradigma educacional subjaz um racionalismo utópico e incapaz de renovar a democracia e contribuir para uma cultura de paz na medida em que: i) ignora a verdade ao mesmo tempo que dá primazia quase exclusiva ao conhecimento proposicional; ii) está cativo de um interesse instrumental, o “pseudo-problema técnico de produzir pessoas”(Nemésio, 1976); iii) alimenta-se da rivalidade mimética; iv) despreza o genuíno debate crítico de ideias e argumentos.

Conclui-se mostrando a relevância para o atual contexto pedagógico de uma prática tradicionais da pedagogia inaciana, nomeadamente das discussões regulares e públicas (Companhia de Jesus, 1986; Miranda, 2018).

Referências

​​Bonhoeffer, D. (2007). Ética. Assírio & Alvim. 

​Buber, M. (2014). Eu e Tu. Paulinas. 

​Companhia de Jesus. (1986). Características da Educação da Companhia de Jesus. https://redejesuitadeeducacao.com.br/wp-content/uploads/2019/05/CaractEducacaoSJ.pdf 

​Cortina, A. (2021). Ética cosmopolita. Una apuesta por la cordura en tiempos de pandemia. Paidós. 

​Direção Geral da Educação. (2018). Aprendizagens Essenciais. https://www.dge.mec.pt/aprendizagens-essenciais-0 

​Esquirol, J. M. (2022). Humano Mais Humano: Uma antropologia da ferida infinita. Paulinas Editora. 

​Estevão, C. V. (2004). Educação, Justiça e Democracia: um estudo sobre as geografias da justiça em educação. Cortez Editora. 

​Girard, R. (2023). Aquele por quem o escândalo chega. Guerra & Paz. 

​Martins, G. d’Oliveira, Gomes, C. A. S., Brocardo, J. M. L., Pedroso, J. V., Acosta Carrillo, J. L., Silva, L. M. U., Encarnação, M. M. G. A. da, Costa, M. J. do V., Calçada, M. T. C., Nery, R. F. V., & Rodrigues, S. M. C. V. (2017). Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (G. d’Oliveira Martins, Ed.). Ministério da Educação / Direção-Geral da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf 

​Miranda, M. M. L. de. (2018). Ratio studiorum da Companhia de Jesus (1599) : regime escolar e plano de estudos. Axioma – Publicações da Faculdade de Filosofia. 

​Nemésio, V. (1976). Era do átomo, crise do homem. Livraria Bertrand. 

​Pessanha, C. (1995). Clepsydra (P. Franchetti, Ed.). Relógio D’Água Editores. 

​Plato. (1997). Philebus. In J. M. Cooper & D. S. Hutchinson (Eds.), Complete Works (pp. 398–456). Hackett Publishing Company. https://cful.letras.ulisboa.pt/wp-content/uploads/2022/03/Plato-Complete-Works-by-Plato-John-M.-Cooper-D.-S.-Hutchinson-z-lib.org_.pdf 

​Popper, K. (2002a). On the Sources of Knowledge and Ignorance. In Conjectures and Refutations: The Growth of Knowledge (pp. 3–39). Routledge. 

​Popper, K. (2002b). Utopia and Violence. In Conjectures and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge (pp. 477–488). Routledge. 

​Popper, K. (2003). Utopia e Violência. In Conjecturas e Refutações (p. 473484). Almedina. 

​Popper, K. R. (2003). Conjecturas e Refutações. Almedina. 

​Zilhão, A. (2010). Animal racional ou bípede implume? Um ensaio sobre acção, explicação e racionalidade. Guerra e Paz. 

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